domingo, 23 de junho de 2013

O inverno brasileiro - Manifestações e Economia - Tudo a Ver

Em primeiro lugar quero explicar que este texto não tem a intenção de dar razão a um lado ou a outro no caso das manifestações que vem acontecendo nas últimas semanas. Até porque escolher lados polariza a discussão e o objetivo é contribuir para a discussão. São apenas algumas reflexões que podem explicar atitudes que vieram e que virão das autoridades políticas e econômicas deste país. Em um país com 200 milhões de habitantes, a primeira pergunta que todos estão se fazendo: “quem são as pessoas que estão se unindo e indo às ruas?”

No governo há 10 anos, o partido dos trabalhadores chegou ao poder com uma sociedade que mal sabia ainda o que era internet, aliás nem o mundo era tão globalizado como hoje. A estrutura da sociedade na época era dividida em “classes” como no desenho abaixo e a proposta do partido era tirar da linha de pobreza 53 milhões de brasileiros (Existem vários conceitos sobre pobreza, para fins de comparação foram utilizados dados do IPEA de 1999).



Com programas como o bolsa família , bolsa escola e programas de geração de emprego e capacitação, não há dúvidas que boa parte da classe que fazia parte da base da pirâmide passou a ter renda e acesso a bens que não conseguiam anteriormente. Hoje estima-se que nos mesmos conceitos do IPEA 2012, sejam 16 milhões de brasileiros na linha extrema de pobreza.  O desenho de “classes” da sociedade com isso se modificou.


Hoje, 2013, com a migração de 40 milhões de brasileiros para a faixa de consumo, o que era dividido em classe média ( C )  e classe média alta ( B ) passou a ter uma classe “média baixa” que são os milhões que passaram a ter acesso a renda. Ok, o todo não mudou, mas o que mudou é como os valores dos impostos recolhidos da população são investidos.

Abrindo apenas um parênteses sobre corrupção. Em 2012, foram arrecadados 1 TRILHÃO e 500 BILHÕES em impostos. As manifestações, com razão, estão chamando muito à atenção para os gastos na copa. Sem querer minimizá-los, mas para dar um panorama às reflexões, os gastos totais com a Copa do Mundo giram em torno de 30 bilhões. O valor total da Copa não chega a 2 % de tudo que foi arrecadado e digamos que, pelo que ouvimos sobre superfaturamento que a Copa vai custar 3 vezes mais que deveria, dois terços seriam corrupção, cerca de 1,3% . Obviamente o problema existe, deve ser motivo de todas as manifestações possíveis, mas o problema é muito maior com o restante dos valores.

Todo economista sabe que dinheiro até se multiplica, mas o valor das coisas não. Aquele 1 trilhão e meio a que me referi acima, é fruto de impostos (altíssimos é óbvio) cobrados sobre tudo que se produz no país. Lembrando que esse valor é utilizado para pagar o financiamento da dívida pública (900 bi, quase metade, que não é a dívida total, apenas amortização e juros  , funcionários, saúde, educação, etc..

 Então, se não se cria nova riqueza, esse valor será sempre o mesmo. Criar riqueza é um assunto bem extenso, que pode ser discutido mais para a frente, mas o importante é notar que desses 1,5 Trilhão também saem cerca de 30 bilhões para os projetos de inclusão social (bolsas) , que também não são o problema principal. O problema principal está listado acima, é a tal dívida pública. Obviamente ela “come” quase metade de tudo que se arrecada no país.

E por que existe a dívida pública?

O governo, tem a “maquininha” que faz dinheiro. Ele tem duas opções, se ele emitir dinheiro de forma desmedida para pagar sua dívida, vai gerar inflação, pois aquelas notas não estão vinculadas a um “valor”. Então o que ele faz? O governo emite títulos dessa dívida e “promete” ao mercado que vai honrar esses títulos em alguns anos, pagando a quem compra-los uma determinada TAXA de JUROS. Esses 900 bilhões são pagamentos de títulos que estão vencendo agora, mas foram emitidos há muitos anos.

Existiu uma pressão desde 2011 por parte do empresariado que não havia possibilidade de investimento no país com a taxa de juros altíssima que existia (cerca de 18% aa). Gradativamente, o Banco Central foi baixando a taxa de juros “futura”, até que chegamos à atual, entre 8 e 9% ao ano. Ou seja, estamos pagando uma dívida a juros altos com bancos oficiais (CEF, Banco do Brasil, BNDES) oferecendo crédito a juros baixos.

A conta não fecha.

Lembram das classes da pirâmide de “classes”? A classe E já está na pobreza e não é afetada por essa dívida do governo. A classe A muito menos, afinal se o custo dela aumenta ela repassa em seus negócios. A classe “média baixa” ( D ) tem suas bolsas, mas sente os efeitos nos serviços públicos, já que pode se alimentar mas ainda depende de saúde e educação públicos. A classe “média média” e a classe “média alta” no ano de 2012 veio sendo “arrochada” com custos de saúde e educação (quem dessas classe tem filho em escola pública e depende do SUS?) até não aguentar mais.

Esse é o motivo de que manifestações são, além de outros motivos, por uma melhor saúde, educação e por uma maior atuação dos governantes (Leia-se também legislativo e judiciário). É claro que não dá para pedir para essas pessoas entenderem que o problema principal está na dívida pública e que como não havia “espaço” no orçamento para investimento chegamos ao ponto que chegamos.

E o que podemos esperar dos governantes?

A curto prazo, nada pode ser feito. Pela história sabemos que em situações assim, governos anteriores recorreram ao FMI para “desafogar”, claro, criando novas dívidas. É assim que muita gente se enrola no cartão ou no cheque especial. Com o monitoramento da imprensa e organizações não-governamentais isso também não seria possível. O ideal seria começar já com um “aperto de cintos” por parte de todos os 3 poderes, governos estaduais e prefeitos. Por isso a presidente conclamou um pacto. Ela sozinha não pode fazer muita coisa. A curto prazo não.

Colocar os royaltes do petróleo na educação não é uma medida de curto prazo. Até porque as estimativas de lucro com o Pré-Sal são para daqui a 20 anos. Por tudo isso o discurso pareceu vazio. É óbvio que todos os governantes aqui citados são regiamente pagos para pensar em soluções e tentar resolver a situação.  Talvez a solução esteja em uma profunda reflexão por parte deles mesmos, diminuindo o número de ministérios, diminuindo o investimento em áreas que no curto prazo não seriam tão urgentes e direcionar esses recursos imediatamente para a saúde e educação.


Vamos aguardar, mas se todos os problemas econômicos do páis não forem bem explicados pelos meios de comunicação, manifestações por melhoras da qualidade de vida vão continuar acontecendo, é impossível que as pessoas simplesmente “esqueçam” seus problemas apenas por um discurso ou por promessas.

Vamos aguardar.
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2 comentários:

DIVULGANDO CR disse...

Muito bom, mas, há pontos muito importantes e que não estão sendo ventilados, e que poderão nos dar um retorno favorável. Exemplo: fim das penitenciárias e criação de colônias agrícolas para os penitenciários que trabalhariam na terra para sua manutenção e não receberiam auxílio reclusão. A proteção, manutenção de nossas floras (marinha e vegetal), o reflorestamento, que tudo isso a médio prazo beneficia a nossa saúde, equilibra o eco-sistema, indiretamente diminuindo o custo Brasil com a saúde. Maior atenção à agricultura, somos a maior extensão territorial em terra fértil, faltam alimentos e continuarão faltando no mundo inteiro; precisamos aproveitar essa condição natural da nação e fortalecer a agricultura "a ritmo de Brasília" (palavras de Juscelino Kubstichek, cujo sonho não pode realizar). Precisamos nos preparar para sermos o grande fornecedor de alimentos do mundo. Breve os grandes sistemas econômicos e financeiros chegarão à conclusão de que ninguém respira nem come dinheiro. Precisamos é de ar puro e comida para poder bem sobreviver. Não muito distante será afortunada, a nação que tiver comida. No mais, PARABÉNS pelo excelente texto!

electrofietsen disse...

I have just read your article and found it very impressive. I think we need to count those facts that you have mentioned here.Thanks a lot for bringing up those facts.

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