terça-feira, 31 de julho de 2012

A reverberação de Rafinha Bastos


Ontem (30/07/2012), o comediante e apresentador Rafinha Bastos esteve no programa Roda Viva da TV Cultura. Para quem não viu o programa, o link está aqui. Não sou fã incondicional do Rafinha, muitas das piadas dele não provocam em mim as gargalhadas desejadas e nem sua postura passa longe de ser arrogante.


O tema central das perguntas, como não podia deixar de ser, girou em torno do problema que o humorista teve com a cantora Wanessa Camargo (entenda aqui). Na bancada, estavam os colunistas de TV Mauricio Stycer, Silvia Popovic, Tereza Novaes, Cristina Padiglione e o escritor e colunista da Revista Época Guilherme Fiuza. Em determinado momento da discussão ficou claro que a visão do entrevistado sobre o acontecimento é que, caso a imprensa não tivesse dado repercussão ao que ele disse não haveriam as consequências.


Obviamente o lado corporativista da bancada aflorou (excessão feita ao Guilherme Fiuza), com comentários e perguntas defensivas, mas em minha opinião de forma equivocada. Ao invés de ater-se aos fatos, e é claro que essas colunas de TV querem mais é explorar o que der em um assunto desses, os jornalistas passaram a questionar a declaração e o conteúdo dela, como em uma espécie de defesa de um ataque que, para os que minimamente prestaram atenção ao que Rafinha disse, não existiu. Ele só quis colocar em discussão o fenômeno da multiplicação da mídia e as consequências inevitáveis.  


Em outro momento, Rafinha colocou que um quadro nos anos 70 do programa "os trapalhões" tinha conteúdo com a palavra macaco referindo-se a Mussum e que ninguém na época chamou o programa de racista e que são novos tempos, o politicamente correto mudou a forma como as pessoas se comportam com relação ao humor. Acho que está claro. Mas infelizmente o colunista Mauricio Stycer diz na entrevista que se fosse feita a mesma piada nos anos 70 as consequências seriam as mesmas. Na minha opinião não seriam, pois não haviam jornalistas em tempo real reverberando o problema. Entenda que o maior colunista de TV da época, Artur da Távola, escrevia semanalmente para a revista "Amiga", portanto já faria parte do passado tal declaração e muita coisa naquela época sumia pois não existia reverberação.


Toda forma de censura é emotiva e impulsiva. Em qualquer desses "julgamentos públicos" que os colunistas de TV narram mas fazem questão de deixar sua opinião a respeito do assunto ou do gosto da piada, se houver um momento de reflexão por parte do interlocutor ele perceberá que basta trocar de canal, não assistir mais ao programa. Queimar indivíduos em praça pública é um prática mediaval. 


Será que o fato de Rafinha Bastos ter 5 milhões de seguidores no Twitter e, de certa forma, ser um formador de opinião faz dele um alvo muito mais apetitoso da inquisição? E será que ele também não se aproveita disso e captura quem é contra a inquisição não importando se a piada é engraçada? Só sei que a mesma inquisição hoje expõe a atleta do judô que teria respondido de forma grosseira (e depois se desculpou) a um ataque no twitter chamando-a de macaca. Onde estão os colunistas agora para usar sua inquisição contra quem ofendeu Rafaela Silva? Já descobriram o nome ao menos? Ou será que como é um ser desconhecido isso não dá ibope. Mais fácil gerar na opinião pública a discussão, se a judoca agiu certo ou errado, dizer que ela foi chamada pela Confederação de Judô a se explicar. Não reverbera porque quem xingou é desconhecido. Isso que o humorista quis dizer.


Continuo com a mesma opinião sobre o comediante, me esforço muito para rir nos "esquetes" criados para e por ele. Até dei força no meu twitter fazendo chamadas nas primeiras semanas de seu novo programa, pois acho interessantes termos alternativas em termos de humor na TV. Mas, para mim fica a dúvida, se, para aqueles colunistas, o importante era defender sua classe naquele momento ou se não entenderam mesmo a linha de raciocínio. Cada um que tire suas conclusões, mas fica aqui a coluna de hoje do Mauricio Stycer para que vocês tenham mais subsídios para analisar. 


Abraços a todos!

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2 comentários:

Iara De Dupont disse...

É interessante ver a perspectiva das pessoas em relação a entrevista.Eu vi uma entrevista de uma imprensa ajoelhada e pedindo perdão por existir e um entrevistado arrogante,sem argumentos e sem nada a dizer.
Politicamente correto?A entrevista foi.Mas queimar individuos em praça publica parece ser por parte de muitos uma prática comum,desde que sejam mulheres,então ninguém repara na perpetuãção da violencia com as mulheres,nas piadas machistas, isso ninguém vee.Nunca escutei piadas pejorativas de Rafael sobre os homens,mas enfim ,ele é um, assim como sua pessoa e estão todos no seu direito de defender seu débil patriarcado.

DIVULGANDO CR disse...

Gratíssimos pelo texto. reduzindo tudo ao seu mínimo expoente é de entristecer o resultado: falta de conhecimento de si mesmo e, conseqüentemente da vida, por todos viverem somente DE APARÊNCIAS. Enquanto isso, milhões de semelhantes morrendo de fome por não terem quem lhes dê atenção nessa selva de pedra, onde se esquecem que a alimentação, pela menos ela, é um direito de todos. E, assim, continuam sempre a dar valor aquilo que valor nenhum tem; a matéria, que, cada dia mais, sorrateiramente vai engolindo homens e mulheres, miúdos e graúdos!Grande abraço!

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