terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Entrevista com Odir Cunha - O homem que colocou a história em seu lugar


Ele já escreveu sobre o tenis feminino brasileiro, foi o autor da biografia do maior jogador de basquete brasileiro, Oscar Schmidt, nos brindou com uma história de todos os jogos pan-americanos entre outras publicações de igual peso. Odir Cunha foi convidado em 2009 por seis grandes clubes do Brasil a pesquisar, redigir e escrever o "Dossiê pela Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959", obra que conseguiu com que a CBF ratificasse os títulos dos seis clubes como campeões brasileiros e posteriormente transformada em livro. Leiam aqui na íntegra a entrevista exclusiva com o jornalista e radialista ao Blog:

Odir, o dossiê sobre a unificação dos títulos fala por si só, uma vez que é recheado de dados, fotos de época, história e obviamente foi fruto de muito suor e trabalho. Gostaria que você falasse um pouco sobre a parte prazerosa da pesquisa, é possível?

Senti-me honrado por ter sido escolhido pelo José Carlos Peres para este trabalho, pois sabia que seria uma tarefa relevante e teria um final feliz, já que a reivindicação era plenamente justa. Vivi o período em questão, sei que a imprensa e as entidades do futebol brasileiro consideravam o vencedor da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa como campeões brasileiros. E isso não poderia ter sido apagado com o tempo. Então, a linha de raciocínio era lógica. Precisaria comprovar essas informações que eu já tinha, colher testemunhos, juntar documentos. Foi trabalhoso, mas, como você mesmo definiu, extremamente prazeroso.
Algumas emoções devem ter se aflorado em alguns momentos, sem dúvida. Qual foi a maior delas durante a pesquisa?
Um pesquisador não pode se deixar levar pela emoção, pelas preferências pessoais, visto que precisa obedecer a critérios científicos, isentos. Mas é claro que, ao reviver a era dourada da década de 1960, quando o Brasil tinha os melhores times e os melhores jogadores do planeta – entre eles craques inimagináveis, como Pelé, Garrincha, Didi, Tostão, Coutinho, Rivellino, Carlos Alberto Torres, Dirceu Lopes, Ademir da Guia e tantos outros -, senti que estava contribuindo para que aquele período não fosse esquecido, para que aqueles ídolos não tivessem talvez a melhor parte de suas carreiras jogada no lixo da memória esportiva do País. E ao me colocar no lugar daqueles jogadores excepcionais e tentar vislumbrar suas reações diante do reconhecimento de seus títulos brasileiros, é claro que senti uma emoção boa, gratificante. Nunca imaginei que um dia poderia retribuir com um grão de areia ao universo que eles doaram ao futebol.

A CBF reconheceu todos os títulos, inclusive dois campeões no mesmo ano. Você pode explicar melhor essa situação?

Esse foi o ponto mais delicado da Unificação dos títulos, e valeu até uma reunião minha com o departamento jurídico da CBF. Analisamos a questão por vários ângulos e a principal preocupação era ser justo, e para isso é preciso ser coerente. Se fossem validadas apenas as edições da Taça Brasil de 1967 e 1968, seriam punidos os campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1967 e 1968, justamente os vencedores da competição cuja fórmula prevaleceu e acabou gerando o Campeonato Nacional que surgiu em 1971. Se fossem validadas as edições do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, seriam esquecidos os campeões da Taça Brasil. Porém, os representantes do Brasil na Taça Libertadores da América de 1968 foram Palmeiras e Náutico, campeão e vice da Taça Brasil que, oficialmente, era a competição mais importante do País naquela época.
Claro que a decisão era da CBF e seria uma decisão soberana. Eu apenas apresentei os dados, a pesquisa e dei meu parecer. Lembrei que em casos em que a fórmula de uma competição está se extinguindo, e outra fórmula começa a prevalecer, é natural haver uma intersecção, com dois campeões no mesmo ano. Isso aconteceu no primeiro Mundial da Fifa, em 2000, que encavalou com a Copa Toyota. O mundo conheceu dois campeões naquele ano – Boca Juniors e Corinthians – e ambos acabaram reconhecidos. Lembrei que os antecedentes de dois campeões no mesmo ano eram comuns na história do futebol brasileiro: só São Paulo teve dois campeões estaduais durante 11 anos; Rio de Janeiro e Minas Gerais também tiveram em oito e três oportunidades, respectivamente. E o Torneio Rio-São Paulo chegou ao cúmulo de ter quatro campeões no mesmo ano. Até o fato de se ter o mesmo campeão duas vezes no mesmo ano não seria incomum, pois o Flamengo foi duas vezes campeão carioca em 1979.
Então, acho que se decidiu pelo mais justo. Não foi tirado nada de ninguém. E nem foi dado, pois os títulos foram ganhos no campo, contra adversários fortes, com arbitragem, público, cobertura da imprensa, torcida e faixa de campeão. Creio que muitos que reclamam não o fariam se os seus times do coração tivessem sido campeões. No fundo, infelizmente, a paixão de cada um acabou interferindo no julgamento sobre o caso. Na minha opinião, a CBF agiu de maneira justa, imparcial, e deu um exemplo de respeito à história do futebol brasileiro.

Muitos desmerecem os títulos reconhecidos, uma vez que os métodos de classificação da Taça Brasil, etc por vezes eram os campeões e vices de estaduais, ou seja, o Campeonato Brasileiro da época não contava com todos os clubes chamados grandes. Qual é o argumento comparativo para ser declarado campeão brasileiro?

Muitos desmerecem sem conhecer a história. Mesmo depois da publicação do Dossiê, muitos – e entre eles inúmeros jornalistas esportivos brasileiros – continuam falando da Unificação sem conhecimento de causa. Que eu saiba, apenas o Celso Unzelte, o Paulo Vinicius Coelho e o Mauro Beting adquiriram o Dossiê. Portanto, a maioria dos “formadores de opinião” têm opinião formada sem estarem informados. Uma das críticas, sem o menor fundamento, é essa de que a Taça Brasil não contava com todos os clubes chamados grandes.
Ora, a próxima Copa Libertadores terá todos os times chamados grandes do Brasil, ou da América do Sul? Não. Ficarão de fora São Paulo, Palmeiras, Botafogo, Cruzeiro, Grêmio, Atlético Mineiro... E por causa disso a Libertadores não terá valor? Claro que terá. Acontece que a Libertadores tem regras claras e vagas limitadas. Quem se classifica, joga, quem não se classifica, pode ser o maior time do mundo, não joga. A Taça Brasil, que obedecia à única forma possível àquela época – em que mal havia transporte aéreo para todo o País e os clubes eram pobres, incapazes de arcar com as passagens – reunia os campeões estaduais em jogos eliminatórios.
Na primeira edição da Taça Brasil, em 1959, o país tinha 20 Estados (contando o Distrito Federal) e 80% deles (16) já foram representados. Portanto, houve representatividade, houve a aplicação de critérios técnicos que reuniram os melhores e selecionaram campeões dignos de representar o Brasil na Libertadores, que em princípio congregava apenas os campeões de cada País sul-americano.
O campeão da Taça Brasil era celebrado pela mídia, pelo público e pela CBD (entidade que originou a CBF) como o legítimo campeão brasileiro da temporada e ganhava o direito de ser o único representante do País na Copa Libertadores. Há fotos de diretores da CBD colocando as faixas de “Campeão Brasileiro” nos jogadores do Bahia, vencedores da primeira edição da Taça Brasil. Enfim, sempre foi um título de validade indiscutível, tanto que são destacados na história de todos os campeões de 1959 a 1968, os dez anos em que a Taça foi disputada.

Uma curiosidade já que você pesquisou tanto o passado e, principalmente a década de sessenta. Já que Pelé é "hours concours", quem foi em sua opinião o craque dos campeonatos brasileiros dos anos 60?

Sem dúvida, Ademir da Guia. Assim como o Santos foi a equipe que mais conquistou títulos brasileiros nos anos 60 (seis), o que era natural, pois se tratava da melhor equipe brasileira da época, outro time de destaque no período foi o Palmeiras, com quatro conquistas. E o grande líder e craque do Palmeiras, sem qualquer dúvida, foi o “Divino” Ademir da Guia.


Odir, você participou de um programa na Sportv chamado "Redação Sportv" onde os apresentadores afirmaram que a emissora, que faz parte das Organizações Globo, decidiu que não reconhecerá os campeões anteriores a 1971. Você acha que, embora a CBF tenha reconhecido os títulos, esta é uma posição contra os clubes ou contra a história?

Há pouco as Organizações Globo divulgaram uma “carta de intenções”na qual diz que seus jornalistas deverão praticar a isenção. No caso, acredito que os profissionais do Sportv estão sendo parciais. Leitores do meu blog – Blog do Odir Cunha – me alertaram de que André Rizek é corintiano e Renato Maurício Prado é flamenguista, e por isso estão contra a justa Unificação dos títulos brasileiros. Recuso-me a acreditar que profissionais tão experientes deixem-se levar pela paixão em caso tão relevante para a história do nosso futebol. Porém, fazendo uma retrospectiva mental dos jornalistas que já se manifestaram contra a decisão da CBF, reconheço que todos eles torcem para times que não foram campeões nacionais entre 1959 e 1970.
Seria muito cômodo, para o torcedor, separar apenas o período da história em que seu time conquistou mais títulos. Porém, a história não começa apenas no ponto que a gente pode desejar, mas sim no ponto em que efetivamente começou. E a verdade é que os primeiros campeões brasileiros surgiram a partir da Taça Brasil, em 1959. Qualquer outra versão é falsa. Por isso, acredito que o Sportv, ao analisar melhor o Dossiê – que está sendo enviado aos seus diretores – reverá sua postura no caso. Acho que se trata apenas de falta de conhecimento da história.

Outra curiosidade: A sua opinião sobre o Vasco ser declarado campeão brasileiro com uma copa chamada João Havelange e o Corinthians ser declarado campeão mundial de clubes sem ser campeão da Libertadores e reconhecidos pela mesma emissora.

Você toca em pontos importantes. Para ser coerente, se o Sportv, ou qualquer outro veículo de comunicação, ignora a Unificação dos títulos brasileiros por julgá-la uma decisão “política”, então não poderia considerar o Corinthians campeão mundial de clubes, nem o Vasco campeão brasileiro pela Copa Havelange, nem muitos outros campeões nacionais. Ora, CBF e Fifa são entidades mais políticas do que administrativas. Se uma decisão que tomam pode ser impugnada por ser “política”, então todas as competições que organizam estão em xeque, pois obedecem a critérios políticos.
O Mundial ganho pelo Corinthians tem várias irregularidades técnicas. Seus critérios para definir os participantes são equivocados e sua fórmula nunca mais foi empregada. A competição ficou quatro anos sem ser repetida, o que pode dar a esta primeira edição o caráter de “experimental”. O fato de a Fifa reconhecer o título também não deveria ser levado muito a sério, pois neste caso a entidade está legislando em causa própria, legitimando uma competição que ela fez aos trancos e barrancos, que não teve o mesmo reconhecimento de mídia e público das versões anteriores da Copa Intercontinental e nem da Copa Toyota.
Como pesquisador, reconheço o Mundial da Fifa, como reconheço as Copas Intercontinentais desde 1960 e a Copa Toyota, pois todos definiam o melhor time do ano no mundo. Nesses casos, a terminologia não importa, o que importa é a finalidade para a qual a competição foi feita. Da mesma forma, reconheço a Copa União e a Copa João Havelange como os campeonatos brasileiros de seus respectivos anos.
Agora, o que não pode, o que é inconcebível, é aceitar-se o resultado do Mundial da Fifa, das Copas União e João Havelange, e rejeitar a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa como os campeonatos brasileiros dos anos 60. Não é coerente. Pois o princípio que rege todas essas competições é a FINALIDADE. Quem acompanhou o trabalho de divulgação do Dossiê e quem já leu o Dossiê não tem qualquer dúvida sobre isso. O problema de muito jornalista esportivo no Brasil é que não sabe, não querem saber e tem raiva de quem sabe. Reconheço que dá trabalho se informar. É bem mais fácil ter uma “opinião”. Mas um profissional da comunicação não pode ter opinião formada sem estar informado.

O dossiê, agora transformado em livro de forma brilhante por vocês, é só para torcedores do Santos?

Não, de forma alguma. O Dossiê é um documento que resgata a era de ouro do futebol brasileiro, que fala de conquistas super relevantes que estavam sendo jogadas no limbo. Ele destaca as competições, os seis campeões nacionais no período – Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Fluminense, Palmeiras e Palmeiras -, os times que, mesmo sem ganhar os títulos, também se destacaram (casos de Grêmio, Vasco, Flamengo, Atlético Mineiro, Náutico, Sport), mostra o poder do futebol nordestino naquela época, enfim, dá um retrato fiel da divisão de forças e do estágio do futebol brasileiro nos anos 60. Traz também estatísticas, números. Prova, enfim, que tudo existiu, que foi muito oficial e muito importante.

Modéstia à parte, acho que o Dossiê veio jogar alguma luz em um período de trevas do futebol nacional. Com ele a CBF pôde refazer seus estudos dos anos 60 – já que uma enchente havia destruido os arquivos da entidade, na Granja Comary – e seu exemplo despertou o interesse de pesquisadores e escritores, que estão lançando outros livros sobre a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Só por revitalizar a história ele já alcançou seu objetivo.

Existe alguma negociação com editoras em se fazer uma edição especial para colecionadores?

O Dossiê foi produzido como um documento a ser enviado à CBF. Não é uma obra que se preocupou tanto com a estética, e sim com a fidelidade dos textos, dos testemunhos, das cópias de matérias jornalísticas e fotos. Em princípio, eu e José Carlos Peres, meu parceiro nesse trabalho, julgamos que obter o reconhecimento dos títulos seria suficiente. Porém, percebemos que havia muita gente interessada em que a lei não pegasse, como, infelizmente, é normal em nosso País.
Percebemos que se o Dossiê ficasse restrito aos diretores da CBF e dos clubes interessados, muitos “formadores de opinião” continuariam a dar a versão que quisessem para os eventos retratados no Dossiê, distorcendo os fatos e tentando passar a imagem de que a Unificação foi uma medida política, sem qualquer mérito técnico. Então, eu e Peres resolvemos imprimir o Dossiê por nossa conta e oferecê-lo a quem o quisesse. Que os interessados lessem e tirassem suas próprias conclusões. O resultado é que 100% dos que leram o Dossiê passaram a considerar justa a Unificação dos Títulos brasileiros a partir de 1959, pois os fatos e argumentos são irrefutáveis.
Quanto a se fazer uma edição especial, não sei. O Dossiê já está bem editado, com um papel de qualidade e ótima encadernação. Eu e José Carlos Peres estamos oferecendo o livro a um preço de custo, diante da qualidade gráfica que ele tem. Por enquanto, ele está sendo oferecido no meu blog, com direito a brinde de Natal.

Algum recado para o torcedor que quer adquirir seu livro e não sabe os caminhos?

Bem, como eu disse, a forma de adquirir o livro é ir ao meu blog - http://blogdoodir.com.br/ - e adquiri-lo, na opção de pagamento que quiser. Para quem fica receoso de pagar com cartão de crédito pela Internet, posso assegurar que o método é extremamente seguro e até agora não houve um único problema. Torcedores de todo o Brasil têm adquirido e recebido o livro onde moram, sem qualquer dificuldade.
Neste final de ano resolvi oferecer como brinde o livro “Sonhos mais que possíveis”, também escrito por mim, que conta 60 histórias reais de superação de atletas olímpicos. É uma maneira de motivar as pessoas para o Ano Novo de 2012. Devemos acreditar em nossos sonhos, mesmo naqueles que parecem impossíveis. O Reconhecimento dos títulos da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa era um desses sonhos que parecia inalcançável e hoje está realizado. Feliz Natal e ótimo 2012 a todos!

Abraços a todos!
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2 comentários:

Maria Marçal disse...

Parabéns por essa entrevista, rica em dados de uma pessoa que vê-se, claramente, ser profundo conhecedor da história dos títulos da Copa.

Maria Marçal - Porto Alegre - RS

katia Farago disse...

Uma bela entrevista! Parabéns
Concordo plenamente com a nossa amiga Maria Marçal.

Abraços

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