domingo, 26 de dezembro de 2010

Reflexão de Natal



Véspera de Natal.
Estou a caminho da empresa para cumprir tabela no meio expediente que o dia prevê. Ao atravessar o centro da cidade, me deparei com uma cena comum para quem vive em São Paulo. Na Avenida Ipiranga, enquanto o pequeno homem vermelho piscava no semáforo de pedestres, um homem pôs o pé na rua e começou a cruzá-la.

Eu em meu carro e mais alguns motoristas ao lado aguardávamos o sinal verde, mas quando ele surgiu, o tal cidadão ainda não havia chegado nem ao meio de seu trajeto.

Olhei bem para ele. Pensei em buzinar, mas logo desisti. Era apenas mais um bêbado, provavelmente morador de rua, que não daria a mínima para o berro dos carros e continuaria calmamente atravessando a rua.

Acho que os outros motoristas pensaram a mesma coisa. Ninguém buzinou. Talvez por ser véspera de feriado, por estarmos tão próximos ao Natal ou simplesmente porque nesse dia pouca gente tem pressa. Não há trânsito, não há horários para cumprir, enfim, a loucura do dia-a-dia de uma megalópole é deixada um pouco de lado, ao menos em dias como esse.

Voltando ao transeunte, ele seguia sua travessia, sendo observado por todos nós que estávamos ali em nossos veículos, aguardando a conclusão para que pudéssemos seguir os nossos caminhos.

Daí aconteceu o que me surpreendeu. Um rapaz em uma moto avançou, passou ao lado dele e naquela pequena fração de segundo eu imaginei que o motoqueiro fosse xingar o pobre coitado, como é de praxe acontecer no trânsito paulista, mas não. Ao passar ao lado do mendigo, o motoqueiro reduziu, fez sinal de positivo e falou: “Feliz Natal!” . Nesse momento, eu errei de novo. Pensei: “Agora o bêbado vai xingar”. Para minha surpresa, ele parou, se virou lentamente, levantou o polegar direito, e disse, com a voz rouca característica dos pinguços, “Feliz Natal companheiro!”.

Depois disso, chegou ao outro lado da calçada e eu segui adiante, mas com aquela imagem na cabeça.

Tudo isso aconteceu em poucos segundos, talvez pouco mais que um minuto, mas me fez refletir pelo resto do caminho.

É natural ficarmos mais sensíveis nessa época do ano e reflexões como essas aflorarem com mais naturalidade, pois estamos tocados pelo espírito natalino. Reconheço que se tivesse acontecido em qualquer outro dia, não me chamaria a atenção, mas só aconteceu porque é Natal.

Nos últimos dias perdi as contas de quantas vezes fui ao shopping e de quanto gastei com presentes. Não sou uma pessoa materialista, mas reconheçamos que o apelo comercial nesse período do ano é realmente forte e nos rendemos a certo consumismo muito mais facilmente do que nos outros onze meses do calendário.

Mas por que estou escrevendo tudo isso? O que tem a ver o pobre bêbado com minha gastança de Natal?

Bom, conclui que , infelizmente, nem todo mundo pode comprar presentes para seus entes queridos no Natal. Ok? Disso todo mundo sabe, e daí? Daí, que nem todos podem comprar coisas materiais, mas que isso não tem nada a ver com ter ou não um Feliz Natal, pois o Natal é muito mais que isso. Não é o que você compra ou o que compram para você, mas sim o que você dá e o que recebe, não física, mas espiritualmente.

Hoje, véspera de Natal, tive a honra de ver dois desconhecidos, com vidas completamente diferentes, problemas distintos, mas com futuros tão incertos quanto os nossos, trocarem os primeiros presentes de Natal, muito antes de todos os amigos secretos que acontecerão mais tarde. E tudo isso com um gesto simples, rápido, mas eterno.

Presenciar tudo isso e entender a mágica desses momentos fizeram do meu também o começo de um Feliz Natal.

Por Thiago Genda
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1 Comentário:

SeuLuiz disse...

Um belo texto. As vezes as coisas mais simples nos surpreendem. Estamos tão acostumados com a correria diária, que nos esquecemos dos pequenos gestos.

Abralos!

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