terça-feira, 19 de outubro de 2010

Formando jovens talentos

O início de carreira é complicado. Lembro-me quando da minha formação. Não encontrava estágio ou emprego. Era motorista particular. Um inferno. Depois de muito procurar, participei de algumas dinâmicas de grupo em algumas multinacionais, cheguei a ir para Jundiaí em uma fábrica de sapatos. Aí que acredito que começa o primeiro erro na contratação e retenção de jovens talentos. Dinâmica de grupo. Quem disse que isso é bom para a seleção de um candidato? Talvez para uma avaliação se ele sabe trabalhar em grupo. Mas um psicólogo que nem me conhece somado a um gerente de setor que nem sabe o que quer vai dar que resultado? Exatamente. Ou vão contratar um bonitinho de família que sabe falar bem e tem carisma ou a gostosona que foi de calça branca na dinâmica.


Que me desmintam os leitores. Quem não vê nos quadros das empresas que trabalham essas figuras pitorescas que me atire a primeira pedra.


Isto feito, começam os programas de formação de jovens talentos. Bonito nome não? Maneira sucinta de desentortar todo o estrago (na opinião das empresas) de criatividade e desejos de mudança que as universidades teimam em enfiar na cabeça desses talentos. O jovem se formou, aprendeu a discutir temas, formar idéias, ter novas idéias. Agora é a hora de mostrar ao novo membro do clã dos executivos como os macacos trabalham. Repetir velhos hábitos. Refazer trabalhos. Finalmente retirar daquele analista pleno aquele trabalho chato e passar para o novo “estag”. Claro, o pleno vai vender facilidades criando dificuldades, dizendo ao nosso amiguinho que o trabalho é super difícil, que ele levou meses para aprender. Fase 1 completa. Qualquer sonho de criatividade ou inovação foram devidamente sepultados.



Ah, e parodiando o capitão Nascimento, como ele não pede para sair? Porque aí que vem a fase 2. Be-ne-fí-ci-os. Isso. Temos o melhor pacote do mercado. É mais ou menos assim, se todos oferecem 100 e esta empresa oferece 100 + 1 temos o melhor pacote do mercado. Indiferente de 100 ser uma merda. Ou seja, merda vira sinônimo de conjuntura econômica. Como conseqüência da fase 2, teremos um indivíduo que além de não ter criatividade alguma ou senso de inovação, se motiva pelo dinheiro a mais que seu vizinho pode ter e não pelo prazer de construir algo na vida.


Muito bem, passaram-se meses, este nosso amigo “estag” já entrou no esquema, agora é puxar o saco do chefe para ser efetivado, pois o trabalho, embora venda que demore oito horas para fazer, o faz em meia hora e nas demais enrola como todos os outros. A diferença sutil é que o os “outros” já estavam mortos quando o “estag” chegou e nosso amigo está cometendo seu suicídio profissional diariamente.


O leitor pode estar assustado ou indignado. Mas tenho certeza que 90% das empresas querem estagiários como mão de obra barata, não se preocupando nem um pouco com seu futuro profissional. Claro que existem as exceções como a Apple , Microsoft, Inbev ou mesmo Semco aqui no Brasil, em que as competências como criatividade, inovação e motivação por construir algo são não só desejáveis como essenciais para tudo que se vê criado por essas empresas. Quando uma empresa assim cria algo novo, logo se credita ao Sr Steve Jobs ou ao Sr. Bill Gates, que são gênios.


Esses senhores, acima do que fizeram em suas carreiras e empresas que montaram, são gênios em identificar que a cultura de suas empresas tem a necessidade de priorizar a formação de jovens talentos. Mais do que isso, incentivam suas empresas a serem diferenciadas no tratamento de jovens talentos. Que os mais antigos de casa devem respeitar e pacientemente desenvolver neles o poder de fazer a diferença em relação à concorrência.


Existe uma nova geração, apelidada por vezes de Geração X, A, Y ou a letra que o leitor escolher, que se refere aos garotos criados no mundo da internet, TV a cabo, etc... que serão consumidores mais exigentes, trabalhadores diferenciados pois aprenderão mais rápido e serão mais criativos. Reflita se a empresa que você trabalha dá espaço para o potencial desses garotos ou se sua cultura esmagará a sua criatividade, inovação e motivação. Essa empresa pode ser enorme hoje, líder de mercado, a gravata ser absurdamente necessária e amanhã ser simplesmente engolida por uma outra em que essa geração teve espaço. E o planejamento dessa aquisição começou com um “estag” que levou o cachorro ao escritório para lhe fazer companhia.



Esse futuro está chegando. Ser agente dessa mudança compete aos mais antigos. Vejo resistências, mas é uma guerra silenciosa que será ganha por uma geração que preza a saúde, não tem horários, detesta gravata e tem QI com um tamanho aproximado de 3 vezes o de um gênio do século passado. Essa geração cria sustentabilidade, tem apreço por clientes e não tem o desemprego como forma de ameaça a seus subordinados. Essa geração procura dar espaço a todos, mas não aceita ser “enrolada”. Essa geração em sua maioria serão mulheres. Essa geração não tem vaidade pelo poder e adora trabalhar em grupo.


Em dez anos, a geração que nasceu com os computadores (como eletrodomésticos) e com a internet estará começando a ocupar cargos de direção nas multinacionais. A partir desse momento você não conseguirá mais mudar, eles já estarão no poder e você não conseguirá acompanhá-los. Será relegado ao ostracismo. E a sua hora de mudar é agora. Portanto, seu primeiro passo é: Olhe para o estagiário de sua área com mais carinho e não lhe tire o brilho que ele trouxe da universidade. Já é um bom começo.


Abraços a todos,

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3 comentários:

Ebrael disse...

A nível geral, vejo que a velocidade de absolutamente tudo tende a aumentar, continuamente, desde a da conexão de dados até a de aprendizado. Chegará uma era em que o aprendizado e a compreensão serão automáticas, quase intuitivas. Muitas pessoas já estão nesse nível em diversas áreas de suas vidas.

Mas sempre há algum tipo de perda, desde que o desenvolvimento não seja planejado a nível integral, correlacionando desenvolvimento pessoal, educacional, moral, cultural e técnico. Esse é o grande medo quando vemos o cavalo, ainda xucro, do avanço avassalador das comunicações e da globalização.

Abçs!

RaposoXD disse...

O Blog está de parabéns, muito bom mesmo. Cara você escreveu tudo que realmente acontece nas empresas que buscam contratar estagiários, e também de como os jovens estão evoluindo e se adaptando muito rápido a coisas novas. Sou estagiário a 1 ano e meio e sei bem como é isso. Porém eu tenho a melhor chefe do mundo (a primeira mas a melhor)A Denise Queirolo =D

Beatriz disse...

Gostei muito desta materia. Parabéns vou indicar para meus amigos e agradecer a DenyMoore que me indicou.

beijos!

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