terça-feira, 19 de outubro de 2010

A decadência das TVs a Cabo no Brasil

A última década foi de grande avanço para as empresas de TV a cabo. No começo só vendiam pacotes para as classes A e B, sendo que a B ainda comprava pacotes reduzidos. Com a estabilidade econômica e o crescente volume de investimentos externos no país, as classes C e D passaram a ser consumidores em potencial. Com isso, os lucros dessas empresas cresceram assustadoramente. E a programação?

Jerry Seinfeld criou a série de maior sucesso da história da TV americana, “Seinfeld”. Ao final de mais de 10 anos no ar (entre 1989 e 1998), diz a lenda que cada ator ganhava US$ 1 milhão por ano no ápice do seriado. O próprio Jerry recebeu proposta para manter seu personagem por mais uma temporada por US$ 1 milhão por episódio, exibidos na NBC e aqui no Brasil no canal Sony. Nos anos 90 e início desta década, outras series de TV produzidas com igual sucesso nos EUA impulsionaram a televisão a cabo no Brasil, entre elas ER (plantão médico), Friends e Law & Order (esta com várias franquias). Desta forma, o brasileiro podia assistir o que não existia nos canais convencionais, ainda com suas novelas globais e mexicanas também.


Mesmo assim, os canais convencionais se modernizaram, fruto de financiamentos estatais através do BNDES e assim, conseguiram concorrer de forma a sobreviver mediante o crescimento do poder aquisitivo advindo do Real. Os canais a cabo americanos continuam investindo em séries para a TV (CSI, House, Criminal Minds) e na programação de reality shows, programas de entrevistas, culinária, etc. O brasileiro passou a adquirir o sinal a cabo e hoje, segundo dados da associação brasileira de telecomunicações por assinatura são 6 milhões de residências com TV a cabo, onde se estima estar levando o sinal para cerca de 20 milhões de pessoas.


O que espanta, e muito, é que ao mesmo tempo em que os canais tradicionais investem no mesmo sentido das operadoras americanas, produzindo séries, programas nos mesmos moldes, as repetidoras de sinal a cabo no Brasil começam a vender mais e mais seu espaço para programas de venda direta ao consumidor. Oras, se o consumidor paga para ver, não é para ver alguém lhe vender alguma coisa. Também se destacam a enorme quantidade de filmes repetidos e reprises de séries. No canal a cabo esportivo de maior audiência, o Sportv, a programação passou a ser direcionada para que o público além de pagar a mensalidade também procure o “pay per view” de outros jogos. A título de exemplo, o público de São Paulo ontem foi obrigado a assistir Goiás x Flamengo, enquanto no mesmo horário um time paulista jogava no Rio de Janeiro e transmitir essa partida para São Paulo não atrapalharia em nada a renda do jogo. Não foi a primeira vez. E nem será a última.


As TVs por assinatura incorrem no mesmo erro de tantos e tantos empresários, que ao chegar ao topo e vislumbrar seus lucros se esquecem da regra básica empresarial. O consumidor mede o custo x benefício. Sabe que se é para assistir a filmes repetidos, reprises de séries, programas estilo “shop tour”, jogos que não lhe interessam, aos poucos vão voltar a migrar para os canais tradicionais. Não vai pagar pois o outro é de graça. Tem os intervalos, mas tudo bem, ele não paga nada para ver.


A Fox Brasil, há 2 anos, produziu a mini série “9 milímetros”, que abordava os dias que aterrorizaram São Paulo quando a facção criminosa que dominava os presídios paulistas enfrentou cúpula da polícia. Foi um fenômeno de sucesso. Isso é investimento em qualidade. Isso faz um assinante não desistir. Mas foi uma exceção. Não se vê nos canais a cabo brasileiros um nível de investimento tal que fortaleça o assinante a ficar, elogiar, comentar com os amigos a ótima programação que determinado canal tem. Assim, vislumbro um futuro em que um dia os canais a cabo vão começar a correr para investir e daí pode ser tarde demais para mostrar o jogo certo e na hora certa. Em qualquer negócio, a busca incessante pelo lucro sem se atentar ao poder de escolha do consumidor pode ser fatal.


Abraços a todos!

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3 comentários:

JORNALISMO ANTENADO disse...

Olá meu querido Luiz, vamos ver se com a lenta e gradual entrada da tv digital no Brasil(e falo isso por demoraremos a sentir de fato essa transição)se veremos alguma mudança de fato nas tvs por assinatura. Ocorre que realmente essas tvs fehadas só visam o lucro sem importar-se com a qualidade dos produtos que estão oferecendo. Eu mesma gosto muitos de assistir a séries e fico abobada com algumas que não tem contúdo nenhum e já estão na 3ª /4ª temporada, enquanto outras por ter um custo alto como foi o caso de roma, parou na 2ª temp.
Exceelnte post. mUito interessante.
Beijos no coração
Márcia Canêdo

Guilherme Freitas disse...

Antigamente a TV a cabo era melhor mesmo. Hoje não tem filmes bacanas na TV. O Telecine repete muitos filmes durante um mês, assim como outros canais. Alguns seriados são chatinhos e confusos. A Sportv faz essa sacanagem (as vezes passando até VT do jogo do dia anterior) para forçar o assinante a comprar o pay per view. Abraços.

ALLmirante disse...

Amigo Luís Pereira,
Infelizmente estamos de retorno às vésperas do Iluminismo, quando o rei credenciava seus apaniguados para cumprirem as rotas, e na volta repartirem os lucros. - Isso se aplica no oportuno tema levantado, mas também aos bancos, linhas de transporte coletivo, estradas, e tantas concessões cartoriais.
Aquele abraço.

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