domingo, 13 de dezembro de 2009

Ideologia. Eu quero uma para viver.


Quando Cazuza escreveu a letra da música “Ideologia” foi um profeta. Nos idos de 1988 quando um dos melhores artistas deste país escreveu essa letra, o país borbulhava política. José Sarney era o “pai do cruzado”, foi eleito indiretamente em 1986 e o país caminhava para as eleições diretas para presidente em 1989.
Existia uma camada da sociedade, representada pelo PDS de Paulo Maluf e por parte do PMDB (sim, sempre a mesma história) que desejava o continuísmo e o domínio do poder da classe dominante. Outras alas também estavam interessadas na mesma coisa, mas, não demonstravam. O PT de Luiz Inácio, então deputado constituinte (!!!) era uma oposição só e algumas alas do partido chegava ao ponto de defender a luta armada e a tomada do poder pela força.
Bem, deu no que deu. Em 1989 o PT do Luiz Inácio elegeu Luiza Erundina para prefeita da maior cidade da América Latina e ao final do ano, um partido minúsculo (PRN) elegeu em conjunto com aquelas alas que sabiam bem o que queriam o novo presidente, Fernando Collor. Até aí tudo bem, é democracia e se aconteceu algo mais tarde foi um processo de aprendizado.
Mas o que se pôde observar mais tarde foi a troca das ideologias. Não existiram mais bandeiras (é claro que isso tem a ver com o final do comunismo no mundo, queda do muro de Berlim, etc.) a serem defendidas por A ou B. A batalha que passou a ser travada não é mais entre ideologias.

Em disputas como entre governo e oposição, candidatos em campanha ou até em eleições de síndicos as pessoas votam em perfis. Não culpo os “marketeiros políticos”. Se um dia existiram modelos diferentes de gestão ou de plataformas de desenvolvimento, elas eram frutos de muito estudo por parte de cientistas, economistas, matemáticos, historiadores, filósofos, etc.. Ou seja, ideólogos. Karl Marx e Engels passaram a vida estudando e escrevendo obras que mais tarde se tornaram um projeto. Assim como Adam Smith, John Galbraith, Paul Samuelson e tantos outros que direcionaram com suas obras outro projeto antagônico ao anterior. O único setor onde ainda vejo isso é o da economia ambiental, onde existem cientistas financiados para isso.
Se hoje lamentamos o fato de não existirem candidatos que nos animem a votar e a defender um projeto isso se deve à falta de investimento nos maiores cérebros. As maiores ondas de desenvolvimento da humanidade como Revolução Industrial, Corrida Espacial, Internet, etc., foram fruto do antagonismo de forças, que obrigava determinados centros a investirem em pesquisa e nesses cérebros.
Vai ser difícil encontrar uma Ideologia assim, se todos pensam iguais tendemos a fazer o mesmo de que já estamos fazendo. E enquanto um presidente de empresa ganha em torno de 1 milhão por ano com seus salários mais os bônus e um professor ou cientista não recebe nem um décimo dessa remuneração, isso passa a idéia de que não queremos investir tanto assim.
Mas era bem legal ter uma Ideologia. Isso era.
RSS/Feed: Receba automaticamente todas os artigos deste blog.
Clique aqui para assinar nosso feed. O serviço é totalmente gratuito.

7 comentários:

Darcy Mendes disse...

Ter um ideal politicamente falando, é defender uma bandeira e, pelo menos entre os eleitores, creio que ainda existe. Já, entre os políticos, isso é apenas uma guerra de interesses - se aqui não está bom, eu mudo de partido e pronto! Que saudade da Arena e do MDB. Aquilo é que era direita e esquerda.

JORNALISMO ANTENADO disse...

É meu amigo Luiz, Cazuza tava certo quando disse IDEOLOGIA EU QUERO UMA PRA VIVER, porém ele prórpio sabia que era pura utopia essa ideologia buscada .Governos perfeitos nunca existirão, porque o ser humano é o mais inteligente ,porém também é o mais curruptivel. Por ser tão inteligente os homens quando chegam ao poder , a usam para benefício próprio ao invés de para o bem comum.
Todos em um período da vida já sentimos essa vontade de ter algo porque lutar, que faça a diferença para as outras pessoas.
Belíssimo post, adorei ser convidada a refletir sobre ele.Beijosss

Nathaniel disse...

Será que essa saudade de uma "ideologia" não se deve a um tipo de mentalidade que ainda paga tributo a modernidade?

O que eu vejo: todas as ideologias falíram, não por mudança de foco do marketing político, mas porque todos os sonhos de um mundo melhor que existiam até a segunda metade do século XX ruíram.

Me chame de nilista, relativista ou o que for. Deixei mais a minha opinião para pensar refletir sobre a máxima "ideologia, eu quero uma para viver". Ao meu ver, essa música representa a percepção do fim do que entediamos como mundo até a década de 1980 (capitalismo versus socialismo, guerra fria, esquerda e direita bem localizada, por um mundo aonde não existe mais referência. Isso pode ser considerado como algo ruim, mas será mesmo?

Susi disse...

Oi Luiz, tudo bem?
Desculpe invadir seu espaço de comentários, mas venho lhe trazer uma notícia que pode lhe agradar.
O primeiro post sobre Maçonaria vai ser publicado em 26/12/2009, às 13:02 hs. (rs). Segue então os dias até ser fechado o assunto, não sei quantos posts serão, pois o assunto é extenso.
Consegui um artigo muito bom, dividi o post para não ficar cansativo. Espero que goste. Promessa é dívida! (rs).

http://pillandia.blogspot.com disse...

A greatest blog indeed! I discovered it from LinkReferral, but I'll be coming back again to here, from time to time!
Best wishes from An Estonian living in Italy

MANU PINK disse...

MUITO BOM ESTE POST!!! CAZUZA O NOSSO UNICO CANTOR COM SEUS MUITOS VALORES E OPNIOES, QUE MARCARAM E MARCAM O NOSSO BRASIL!

BJOKAS E FELIZ NATAL!

Alceu A. Sperança disse...

Cazuza, pequeno-burguês, confundia ideologia com uma filosofia de vida ou um partido político que expressasse as suas ideias.

Ideologia é isso que a gente vê aí o redor: o poder do capital oprimindo a humanidade.

Ele não teve tempo de elaborar suas ideias para chegar a uma proposta revolucionária.

Utopia? Com a palavra Victor Hugo:

"Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã".

Viva Cazuza!

Nada será como antes, amanhã.

Postar um comentário

  ©Antropomidia | Licença Creative Commons 3.0 | Template exclusivo Dicas Blogger